Tatuapé: estudantes do bairro querem ir ao Quanta da Índia, competir em matemática

07/10/2015 14:32

Sábado, 3 de outubro de 2015, às 11h44


Mas no Quanta não é só fazer uma prova, a competição internacional exige domínio do idioma inglês, de eletrônica, habilidades mentais e rapidez de raciocínio em provas diversas, de atualidades, durante um debate e a construção de modelos mecânicos que deverão movimentar-se e vencer obstáculos por si só utilizando princípios simples, sem a ajuda de ninguém. Para participar os alunos estão percorrendo um longo caminho que ainda não terminou – uma corrida contra o tempo entre os estudos em período integral, a preparação para essas provas e arrecadar o valor das passagens.

Gerson Soares

Depois de conseguirem alcançar o primeiro lugar e a única medalha de ouro entregue a uma escola estadual, na versão brasileira da Olimpíada Internacional Matemática sem Fronteiras (Mathématique sans Frontières), os alunos do 3º D da Etec Mather Luther King (Etec MLK) do Tatuapé, localizada à Rua Apucarana, 815, foram convidados a competir na prova anual da 21ª Quanta – Competição Internacional de Ciências, Matemática, Habilidades Mentais e Eletrônica.

 

Rumo ao Quanta: reunião no apartamento do líder do grupo no Tatuapé. Foto: aloimage

Rumo ao Quanta: reunião no apartamento do líder do grupo no Tatuapé. Foto: aloimage

 

A Quanta foi organizada pela primeira vez em 1994, como um evento nacional na Índia, mas devido ao grande interesse dos concorrentes e estudantes se tornou uma conceituada competição mundial com participação de 40 países, inclusive o Brasil, que agora pode ser representado pelos alunos da Etec MLK do Tatuapé.

Para chegar à cidade de Lucknow na Índia e participar dessa disputa eles estão percorrendo um caminho que começou depois da notícia de que a classe do Ensino Técnico Integrado ao Ensino Médio (Etim) de Mecatrônica 3º ano D, fora a escolhida para competir na Olimpíada Matemática sem Fronteiras – entre as demais classes da Etec era a que teria as melhores chances de vencer naquele momento.

Após a divulgação do resultado, em junho, de que haviam ganho a medalha de ouro, diante da alegria dos jovens ainda surgiu essa oportunidade que certamente marcará suas vidas e as carreiras escolhidas por eles, devido a importância da Quanta, mundialmente reconhecida pelas exigências das suas provas e as habilidades necessárias aos vencedores.

Os jovens, escolhidos para representar a classe – faixa etária entre os 16 e 17 anos –, estudam em período integral cursando os ensinos médio e técnico na Etec MLK, estão dispostos a enfrentar todas as dificuldades para conseguir angariar o valor de R$ 80 mil. Pais, professores e alunos da Etec também estão ajudando e muitas pessoas já contribuíram, mas ainda falta bastante.

De acordo com o grupo, entrevistado ontem (2/10) pelo Alô Tatuapé, em reunião no apartamento da família de um dos integrantes e representante da turma Matheus Miguel, 16 anos, moradores do Tatuapé, no dia 22 de setembro foram para os faróis das ruas do bairro portando faixas para pedir ajuda aos motoristas e transeuntes, depois que receberam o decepcionante comunicado de que o Centro Paula Souza (CPS) – ao qual a Etec está subordinada – vinculado ao Governo do Estado de São Paulo não teria condições de bancar as passagens.

Depois de consultarmos a diretoria da Etec MLK, esta nos orientou a entramos em contato com a assessoria de imprensa do CPS para falar a respeito do assunto e ficou clara a posição do órgão no comunicado que enviou à nossa redação: “Como os estudantes da Etec Martin Luther King, grupos de alunos de outras 14 Etecs também foram convidados para participar do Quanta, na Índia. O bom desempenho de seus estudantes – nesta e em outras competições – é, sem dúvida, motivo de orgulho para a instituição, mas, infelizmente, não há recursos disponíveis para custear tantas passagens e estadias internacionais de tantas Etecs”, respondeu.

 

Ajuda: faixa exibida no esquina das ruas Monte Serrat com Tijuco Preto. Foto: Facebook / reprodução

Ajuda: faixa exibida no esquina das ruas Monte Serrat com Tijuco Preto. Foto: Facebook / reprodução

 

Haja fôlego e vontade

Pode ser, mas de acordo com os estudantes não será esse o motivo que vai lhes retirar o fôlego ou os impedirá de atingir seus objetivos. Afinal, esse grupo foi o único entre todas as escolas estaduais de São Paulo e as 14 Etecs mencionadas pelo CPS a conquistar uma medalha de ouro na Olimpíada Internacional Matemática sem Fronteiras. Diga-se de passagem, um feito brilhante, dadas as dificuldades pelas quais passa a educação no país, mais gravemente o ensino público.

Chama a atenção, a união do grupo e o altruísmo de amigos como Ruth Moraes, 18, aluna da Etec. Apesar de não ter sido escolhida para a delegação que pretende ir à Índia, assim que soube da notícia pegou uma sacolinha e teve a iniciativa de começar a recolher dinheiro entre os colegas da escola. Segundo ela, que acompanhava o grupo durante esta reportagem, em menos de uma hora conseguiu arrecadar R$ 134.

Devemos lembrar também do esforço de todos os alunos da classe do 3º D, e mesmo de outros que estão torcendo por eles na escola, como a Natasha Durazzo, entrando em contato com o Alô Tatuapé para pedir ajuda na divulgação do intento dos amigos. Quem também colaborou e muito, foi a turma da classe do Renato Bilotta. Estudantes de marketing na Etec, depois de falar com Ruth, criaram uma página no site Vakinha, onde agora qualquer pessoa pode colaborar com a quantia que julgar possível. Além disso, há uma página no Facebook, onde podem ser vissualizadas fotos, vídeos e as ações do grupo, que além de correr atrás da verba para a viagem precisa se preparar para as provas da Quanta. Que não são nada simples.

 

Classe do ETIM 3º ano D. Foto: Facebook / reprodução

Classe do ETIM 3º ano D. Foto: Facebook / reprodução

 

Quem disse que o Brasil não tem futuro?
Conheça os integrantes do grupo

Tem sim e é muito importante destacar a dedicação dos professores, reconhecidos pelos próprios estudantes. Por sua vez, os alunos da ETEC Martin Luther King sonham com um futuro brilhante.

Devido principalmente aos esforços que já estão fazendo para se destacar em suas futuras profissões e se depender da vontade que somam ao empenho, eles concretizarão as suas metas que vão desde cursar engenharia Naval até Mecatrônica, passando pela Física – opções por carreiras nada convencionais entre os jovens brasileiros.

Mesmo formado por adolescentes, o grupo já têm histórias para contar e pode ser considerado acima da média. Multi-instrumentista autodidata, líder do grupo Matheus Miguel, pretende cursar a Academia do Barro Branco da Polícia Militar. O futuro oficial, aos 16 anos de idade já está selecionado dentre 1.040 dos 15.000 inscritos para as provas. Seu nome está entre os primeiros colocados.

Avner Campanha, 16, quer ingressar na carreira de engenharia Elétrica e vai prestar vestibular na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli) e Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Lemuel Henner, 17, já percorre parte do caminho para a área profissional onde pretende atuar. Aluno da classe de Mecatrônica da Etec MLK, quer continuar nessa carreira e também prestará vestibular para engenharia na Poli e Unicamp.

Gabriel Gomes Ferreira da Silva é dono de um talento inato. Aos 10 anos de idade, venceu 65 mil concorrentes num concurso de desenho promovido pela Secretaria de Estado da Educação de São Paulo. Com isso ganhou o direito de levar a mãe e o professor a visitarem o principado de Mônaco, no sul da França, ao ser convidado para participar como jurado-mirim no Festival Internacional de Circo e conhecer a princesa Stéphanie de Mônaco, que pessoalmente escolheu seu desenho. Agora, aos 17 anos, quer ser engenheiro Naval.

Rodrigo Lustosa, 17, vai cursar Física. O futuro cientista vai fazer um cursinho e prestar o vestibular da USP somente no final de 2016. Durante o ano que vem estará voltado para outros cursos paralelos e focando no seu TCC.

Victor Freire, 17, pretende cursar engenharia Mecânica em Santa Catarina. Quando perguntamos qual o motivo para ir tão longe de sua família que mora em São Paulo, ele explicou. “Lá existem boas universidades e eu terei mais proximidade com o idioma alemão”, logo deduzindo que os alemães dominam esse setor e seguindo sua lógica as oportunidades poderão ser ampliadas.

Vitor Kodhi Teruya, 16, que ser engenheiro em Ciências da Computação, uma das áreas que mais cresce no mundo. Sua experiência o deixa como um componente-chave do grupo para as provas da Quanta.

Ruth Moraes, 18, pretende estudar moda e diz que será possível aplicar todo o conhecimento técnico que está obtendo com seus estudos na Etec MLK, nesse diversificado setor. De fato, ao vivenciar as experiências para ajudar os amigos conseguirem seus objetivos, a qualificam no setor onde a concorrência é feroz.

 

Em frente à entrada da Etec Martin Luther King, no Tatuapé. Foto: aloimage

Em frente à entrada da Etec Martin Luther King, no Tatuapé. Foto: aloimage

 

Quanta

A competição estudantil da Quanta, basicamente consiste em provas gerais que deverão ser respondidas pelos grupos – formados por no mínimo três e máximo de sete alunos que deverão estar acompanhados por um professor do próprio estabelecimento de ensino do país inscrito – para depois prosseguirem na demais etapas.

Depois dessa fase, os estudantes terão de apresentar dois mecanismos móveis – espécies de robôs. Um deles será uma miniatura veicular que deverá transpor diversos obstáculos em terra, ou seja, o carrinho deve percorrer o espaço entre os pontos de partida e chegada por si só, podendo usar até sensores, mas sem a ajuda dos seus construtores. O segundo objeto será um pequeno barco, cujo objetivo é navegar em linha reta de uma borda a outra, utilizando a raia de uma piscina.

Provado isso, os competidores são submetidos aos testes de habilidades mentais, numa prova onde as perguntas são projetadas numa tela e cada grupo deve apertar um botão para respondê-las. Logicamente quem souber mais e for mais rápido ganhará a prova. Detalhe: tudo no Quanta é feito em inglês. Uma dificuldade a mais para os jovens brasileiros da Etec MLK do Tatuapé, que deverão raciocinar primeiro sobre o idioma estrangeiro e ao mesmo tempo pensar na questão apresentada, apertar o botão e respondê-la corretamente. As perguntas são sobre vários temas.

 

Contribuição no semáforo na esquina das ruas Apucarana e Tijuco Preto. Foto: Facebook / reprodução

Contribuição no semáforo na esquina das ruas Apucarana e Tijuco Preto. Foto: Facebook / reprodução

 

Vakinha

O Vakinha, é um site que agiliza as famosas vaquinhas feitas por amigos, parentes e famílias quando é preciso arrecadar fundos para causas como esta, por exemplo. Os alunos da Etim de Mecatrônica do 3º D, ganharam uma Vakinha dos colegas do Marketing e qualquer pessoa pode contribuir para ajudá-los ir para a Índia competir na Quanta (clique no botão mais abaixo).

Assim que foi criada a “Vaquinha” do grupo, recebemos a mensagem de Natasha, dia 23 de setembro. No dia seguinte entramos em contato com Matheus, dando início a esta reportagem e estamos acompanhando a evolução da arrecadação que começou com R$ 470. Na manhã deste sábado (3/10), as contribuições para a ida do grupo estavam em R$ 11 mil. A Quanta será realizada entre os dias 13 e 17 de novembro. Portanto, é preciso arrecadar muito mais para atingir a meta dos R$ 80 mil necessários à viagem.

Vale a pena investir e contribuir

Entre as escolas brasileiras inscritas na Olimpíada Internacional Matemática sem Fronteiras, 217 ganharam medalhas de Bronze; 135 foram premiadas com as de Prata e 63 receberam o Ouro. Dentre essas últimas, 21 escolas são do estado de São Paulo, nove da capital paulista e apenas uma é estadual: Etec Martin Luther King, mais especificamente os alunos do Etin 3º ano D.

Por isso vale a pena contribuir para a causa desses garotos que estão imbuídos das melhores intenções e sentimentos patrióticos, honrados por terem a oportunidade de representar o seu país no exterior. Em suas idades possuem o fervor, o orgulho de serem brasileiros, são símbolos a favor do otimismo que os jovens sabem despertar nos corações humanos.

Demonstram mais uma vez que o Brasil só precisa de governos sérios e incentivos para que se ouçam os brados retumbantes da juventude e seus feitos, com um pouco de ajuda e carinho eles podem chegar muito além das nossas fronteiras.